quinta-feira, 25 de junho de 2015

A solidão vai acabar comigo?



Desde que emancipei minha sexualidade de um relacionamento hétero e sai do armário já me apaixonei umas quatro vezes e todas elas parecia que eu tava arrancando meu coração para fora do corpo. Eu nunca tinha me sentido assim. É tudo tão bom, mas tudo tão breve que toda vez que acaba parece que explodiram minha cabeça também. E é assim com o coração para fora do corpo e a cabeça aberta que tenho vivido esses últimos dois anos e meio.
De certa forma eu considero que é a única maneira honesta de viver. Independente de qual fosse meu caminho, meu caminho seria esse. Eu disse isso pra minha mãe uns anos atrás falando de outro assunto. É, não teria outro jeito mesmo, todas as portas que eu consigo imaginar que abriria ou as estradas que eu poderia escolher, tudo acabaria do mesmo jeito. É... não haveria outro jeito honesto de viver.
As pessoas riem muito de mim por causa da minha hiper sensibilidade, essa maneira virgem e estranhamente cavalheiresca (se você considerar que eu sou feminista e isso quase me define completamente) que eu tenho de ver as minhas relações com as mulheres pelas quais eu me apaixono, e riem também do tanto que eu sofro. As pessoas riem também de algumas mulheres que choraram quando gozaram pela primeira vez transando com outra mulher (ou seja riem de mim de novo). Vejo algumas pessoas sendo bem grosseiras nesse sentido. Veja bem, eu aceito brincadeiras com essa minha sensibilidade excessiva, porque ás vezes é bem caricato e engraçado mesmo. Mas certos comportamentos só fizeram sentido quando convergiram para  a minha lesbiandade. Porque tem coisas dolorosas, bonitas, difíceis que só se relacionando com outra mulher para se entender, como chorar de alegria depois de transar. Essa parte minha que ama tanto é culpa da socialização, mas ela faz mais sentido se esse apaixonamento é por outra mulher, sabe? Porque sentir isso por homem é suicídio mesmo. Então, nesses dois anos eu tenho ficado a maior parte do tempo sozinha, já que cumprindo outro clichê só arrumo namorada longe. Eu tenho sido lésbica sozinha, o que é bem difícil, muito mesmo já que eu gosto bastante de estar com outra mulher sexualmente ou de qualquer outro jeito. Eu fico me sentindo meio impotente e inútil, você querer tanto as mulheres e elas nunca te quererem de volta é bem difícil de aguentar. Mas ainda assim é melhor do que mentir, ainda assim ser lésbica é a maneira mais honesta de ser eu, talvez ficar sozinha também seja.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Eu urso

Eu tenho um urso. Ele vive dentro de uma caixa. Nada que existe fora da caixa é real. Ele já saiu da caixa e se decepcionou porque tudo que ele imaginou durante anos que existia fora da caixa só existia na sua imaginação. O urso tem fome, sede, ele sofre mas se conformou que a caixa é suficiente, ela é grande e consegue conter ele apesar de ser apenas uma caixa. Então ele fica dentro da caixa pra sempre. Ele criou seu próprio mundo dentro da caixa e prefere ficar lá dentro imaginando o que existe fora da caixa do que sair de lá de novo e se decepcionar. 
Ele criou um universo lindo para ele mesmo, ele imagina que fora da caixa exista uma
fonte de mel infinita, ele imagina que fora da caixa existam outros ursos, ele imagina que fora da caixa exista amor. A sua imaginação é infinita, o que tem lá fora não. Ele não sabe o que é ser um urso, ele nunca saiu da caixa. Quando ele saiu da caixa e chamaram ele de urso, se assustou. Ele não sabia que existia um nome para aquilo que ele era e se ofendeu quando gritaram "É um urso! Cuidado! Prendam ele!". Foi nesse dia que ele voltou pra caixa e nunca mais saiu de lá, foi nesse dia que o primeiro passo fora da caixa foi de esperança e o segundo uma armadilha, Ele não quer ser capturado novamente. Então ele fica dentro de sua caixa vazia onde ele pensa que come, mas a comida é invisivel. Ele pensa que ouve música mergulhado no silêncio e ele pensa que é feliz mesmo sem saber o que é isso. E ele pensa que existe uma mesa dentro da caixa e ele pensa que sua família imaginária se senta ao redor dessa mesa para tomar café. Ele pensa que a marca do seu próprio sangue em uma das paredes da caixa é um arco-íris que ele mesmo desenhou e ele pensa que está de pé. Até que um dia ouve uma voz que vem de fora dizendo que quer libertá-lo e sua caixa desaba, entra luz dentro da caixa e ele nota que sempre esteve amordaçado e quando tenta fugir de novo para escuridão percebe que nunca esteve de pé pôs seus tornozelos estão amarrados um no outro e pela primeira vez ele sente dor. E ele percebe que todo o universo que ele criou dentro da caixa são só 2 metros e meio de largura, quando lhe dão comida a primeira vez sua barriga dói tanto que ele entende que nunca comeu, então passa a mão pelas suas costelas e vê como está magro e sente algo doer e percebe que arrancaram suas unhas, procura pelo preso no sangue seco das suas unhas mas não tem nada. Ele acha estranho, se as unhas sangraram e tiveram contato com seus pelos deveriam ter fios presos entre as unhas, ele nota que tiraram todo o seu pelo. Então ele leva as mão a cabeça desesperado e descobre que cortaram um pedaço das suas orelhas, procura um espelho desesperado para ver o seu real estado e enxerga um borrão, assim descobre que está cego. Começa a chorar de tanto sofrimento e enquanto se envolve com seus próprios braços nota uma marca, foi marcado com um ferro. Se revolta e levanta furioso, procura restos da caixa para fugir com ela para longe, de repente não restou nem um pedaço de papelão. Nessa hora sente uma presença humana ao seu lado, seu olfato está pouco apurado mas tenta cheirá-la, é um cheiro conhecido, tenta abraçá-la e seus braços também lhe são conhecidos. Olha o borrão no espelho e entende " Se a caixa estava lá fora e eu dentro, nunca existiu uma caixa e o urso sou eu"

Foto:
Performance de Carlee Fernandez
Bear Studies

sábado, 9 de maio de 2015

Sua merda fede a Dior

"Algumas merdas fedem mais do que as outras"
Nick, Orange is the new black

Hoje eu estava lembrando de quando eu assistia filmes americanos na Sessão da Tarde e ouvia adolescentes reclamarem de privacidade. Todo mundo merece privacidade, né? E a questão da privacidade vai além de querer ver pornô no quarto e seus pais permitirem que você tranque a porta para isso.
Mas eu achava tão patético e estranho aquelas crianças reclamando de privacidade quando eu tinha escova de dente compartilhada e lá em casa "a gente não troca de roupa aqui. a roupa é que troca de corpo". Hoje eu vivo cercada de pessoas que levam um estilo de vida que pra mim era coisa de gente rica e pra não dizerem que eu centro sempre o problema na minha própria experiência, a minha experiência era apenas reflexo da situação política e económica que o Brasil vivia.
Sofrer, vocês sabem, todo mundo sofre. Até um inseto sofre. Tipo, mesmo a formiga não tendo lá um alto grau de consciência, se você esmaga ela, ela sofreu um atentado. O que acontece é que assim como o sofrimento da formiga não é um problema meu e nem pauta de reivindicação política (ou não deveria ser, porque provavelmente é), certas coisas que mulheres e outros humanóides sofrem não é problema meu e não deveria ser pauta política. Considerando que as pessoas da minha idade cresceram ouvindo a Britney cantar e ficar semi desnuda (ou completamente nua) e antes dela a Madonna já fazia o mesmo com um pouco mais de densidade no que se refere a chamar isso de "liberação sexual da mulher" reivindicações como ser livre pra apanhar na cama, dar de quatro ou namorar homens "eu dou o cu, dou a buceta, se for pra o inferno dou no colo do capeta" não está na minha lista de prioridades de reivindicações enquanto feminista.
Desde a era do Calígula sadomasoquismo e transar com homens tá liberado. Então contem até 3 e respirem " 1 2 3 ufa! ninguém vai de fato me condenar por isso". É óbvio que é muito chato não poder falar sobre isso em reuniões de domingo na família e mulheres 'de família" não poder falar de sexo é oriundo de misoginia. Afinal, o churrascão de domingo serve para as outras mulheres, aquelas que dançam Valeska Popozuda até o chão mas fala muito mal da vizinha que traiu o marido. Mas em um mundo que eu nem seria convidada para o almoço de família (nem reivindico isso, apesar de subjetivamente essa ser uma coisa que me corrói, eu não reivindico a estrutura familiar patriarcal de nenhum modo e em nenhum contexto) e em uma escala maior esse meu sofrimento não significar nada comparado ao mundo daquelas 214 meninas africanas que foram sequestradas voltaram todas grávidas e não vão conseguir abortar, o seu sofrimento de não poder dar de quatro porque essas feministas peludas/lésbicas e frígidas que mancham o nome do movimento não deixam chega a ser engraçado e meio patético.
Mas é um bom reflexo da natureza humana egocêntrica, minha vó preferiria chamar de "disgramenta".
Feliz sábado! Quebra tudo! Aproveita e leva uma plaquinha pra balada "Viva a heterossexualidade, vou transar sim! Uhul!" melhor tatua um Lanboutin escrito "Girl Power" no ânus.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Solidão, lesbiandade e negritude



Ontem eu estava voltando do trabalho, após andar um pouco sozinha pela Zona Sul do Rio, meio que enojada de todas aquelas pessoas que vivem por lá como sempre. Eu estava ansiosa, com medo, insegura e fiquei me perguntando se eu tinha o direito de amar e sentir como todas aquelas pessoas. Óbvio que a resposta é não. Mas existe um motivo mais denso por trás desse não, do que simplesmente argumentos teóricos sobre como as demandas da vida material afetam a vida de uma mulher negra, pobre e lésbica a privando até mesmo de demonstrações públicas de afeto por ser lésbica e de desenvolver relacionamentos sérios e sadios por ser negra. Isso é fundamental para entender o que é de fato a solidão da mulher negra que as feministas negras tanto falam. Eu, por exemplo, quando mais nova já desejei chegar logo aos 30 para evitar ser aliciada a prostituição. Passada a idade eu teria saído do mercado. As tentativas de aliciamento ou insinuações não ocorreram porque eu era bonita, quando adolescente eu era uma figura meio estranha (sei lá sempre acho que todo mundo me observa com estranheza mesmo), o motivo do aliciamento era por ser mulher e pobre, ser negra me colocava como mais disponível. Mas se você é mulher e pobre, sabe que essa é uma opção que a sociedade deixa reservada pra você, mesmo que seja branca, é como se todo mundo dissesse sem abrir a boca "tá precisando de grana? usa o que você tem". Mas ninguém fala.
Assim como ninguém chega pra mim e fala "não vou ter um relacionamento com você porque você é negra". E nesse caso é mais complicado porque as pessoas não conseguem mudar essa atitude e nem ao menos identificá-la, é automático. As mulheres, meninas que são minhas amigas ou algo a mais, não entendem o que é ser a vida toda referenciada como a segunda pessoa, a coadjuvante em que sua amiga ou namorada branca se fia para ser a protagonista. É assim que somos referenciadas na tv, da Sessão da Tarde até o horário nobre. E é assim que minhas amigas brancas de classe média viveram a vida toda, a amiga negra era a exceção, a raridade na boite, na festinha de aniversário, na classe da escola, no playground do condomínio. Talvez você goste muito dela, talvez você a tenha ajudado quando ela sofreu bullying, talvez essa amiga negra esteja na sua vida até hoje, mas sempre como exceção e por isso talvez você tenha se acomodado e muito provavelmente nunca tenha passado na sua cabeça que mesmo que ela ainda não tenha consciência disso ela sempre esteve sozinha nos espaços que você talvez a tenha tentado inserir.
Quando eu falo de solidão da mulher negra, eu não falo como algumas irmãs de luta que eu respeito sobre a necessidade do casamento (hétero na maioria das vezes) ou de um relacionamento sério que as mulheres negras sentem. Eu falo sobre sentir sozinha, sobre não ser aceita ou quando se é aceita em certos círculos olhar pra os lados e não ver seus iguais, suas iguais.
Ontem enquanto eu caminhava entre o Largo do Machado e o  Catete,apenas caminhando e refletindo eu vi na mesma calçada uma garota ruiva caminhando sozinha com seus fones de ouvido, ela não parecia ter pressa então eu deduzi que ela estava fazendo o mesmo que eu, apenas caminhando. E eu pensei "O que é essa garota branca caminhando sozinha aqui nesse lugar e o que sou eu caminhando sozinha aqui nesse lugar?" Se ela chorar, se ela levar um pontapé, se ela for assaltada qual vai ser o tratamento que ela vai receber? Mas menos trágico que isso, o que as pessoas pensam quando a vêem e o que pensam quando me vêem? Eu acho que quando a vêem não pensam nada. Quando me vêem pensam muitas coisas.  Acho que a primeira coisa que as pessoas identificam em mim aqui no Rio é que sou nordestina, depois que eu vim morar no sudeste descobri que isso está escrito na minha testa. As pessoas quando a vêem não pensam nada porque o lugar a pertence, quando me vêem pensam muitas coisas porque nada é meu. Isso é o que eu concluo que seja a solidão da mulher negra.
E se eu chorar no meio da rua, e se eu sofrer de amor? Bem capaz que algum músico que curta chorinho faça um samba que eu nunca vá conhecer e é capaz que achem que eu estou ali me prostituindo e algum cliente me agrediu, que eu estou chorando porque recebo pouco, mas vai ser normal o meu choro. Porque se tem uma coisa que pertence a uma mulher negra, lésbica, nordestina é a tristeza e a solidão. Esse lugar nos foi reservado. Se aquela garota chorar as pessoas vão achar muito estranho, ela não nasceu pra chorar andando sozinha no meio da rua em plena terça-feira. Eu sim. Eu que nem ao menos posso demonstrar afeto pela mulher que eu amo em qualquer lugar, eu que não sou de lugar nenhum, eu que sempre sou olhada com estranheza em certos meios, eu que sou sempre a esquisita, a estranha porque eu cismo em agir como se as calçadas entre o Largo do Machado e o Catete fossem minhas e sempre cismei em agir como se o mundo e a comunidade que somos nele me pertencessem. Mas nada é meu.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Esse texto é brega

Escrevo esse texto do fundo da minha desesperança, uma outra vida é possível.
É possível superar um trauma, é possível se alimentar melhor, é possível criar laços tão profundos fora do núcleo familiar, é possível mudar sua vida e também o mundo. É possível uma outra vida para as mulheres. Há séculos atrás parecia impossível imaginar uma mulher negra como eu redigindo esse texto e tendo liberdade para assiná-lo. Mas em algum momento alguém acreditou que podia, foi lá e fez.
Eu não desisto das minhas lutas, das batalhas travadas contra o sistema, das minhas lutas internas de aceitação nem do desafio de me reconstruir. Eu não desisto não porque sinto prazer em lutar, não porque é fácil, não porque não corro risco de ser traída e me decepcionar com meus próprios ideais no meio do caminho. Eu não desisto porque é preciso não desistir, pois essa é a única coisa que dá sentido a vida. Não, a minha vida, mas a vida de maneira geral. E é nisso que eu acredito. É nisso que eu me fio. Eu vi minha vida ser transformada pela minha vontade de mudar. Eu não queria viver a vida toda no mesmo lugar, com a mesma mentalidade. Eu me sentia presa, viajei, me transformei.
Nem tudo vai ser com a gente espera. Mas é preciso não se perder do alvo. Um dia eu escrevi

"Lembre-se que a angústia não vem do quebrar as correntes, mas das marcas que a prisão deixou.
E siga para o alvo que é ser o exato contrário do Cristo que tu abandonou"
Eu tenho um norte e isso faz toda a diferença. Mesmo que eu me decepcione, mesmo que eu ouça coisas horríveis das pessoas que deveriam estar do meu lado eu não me perco disso. É possível, mas é preciso saber que enquanto se trata de mudar sua vida ou mudar o mundo a sua luta é atemporal. Pode acontecer hoje, pode acontecer daqui três gerações, mas vá lá e faça.


Sapho Antiglitter

sexta-feira, 13 de março de 2015

Eu, a estranha

Eu não sei desde quando eu me sinto assim, mas lembro que vem de muito longe. Desde muito cedo vivo esperando o momento que todos vão jogar tinta em mim no baile de formatura e rir da minha cara publicamente e mais ainda pelo momento que eu vou ficar tão furiosa a ponto de chutar todo mundo e explodir a festa toda. É, eu sei...é infantil. Há um tempo atrás eu chamava isso de síndrome de mártir, aquela coisa toda de ser sempre perseguida e sofredora. Hoje eu não tenho tanta certeza que se trata só disso. Na verdade, eu tenho certeza é que 70% desse sentimento é bem material, não tem nada de loucura subjetiva. De certa maneira eu sempre fui Carrie, exótica, excêntrica, estranha mesmo para ser bem clara. Aí você olha pra mim e vê uma mulher comum, que faz tudo que todo mundo faz (trabalho, faculdade, convivência social) e pensa que eu realmente sofro de mania de perseguição. Mas não, eu sempre nadei contra a corrente, sempre. Eu sempre me destaquei de uma maneira extremamente nociva pra mim. A única mina negra do jardim de infância a quarta série, a única mina pobre da escolinha, a única adolescente que não tinha beijado ninguém, a problemática que chorava e tinha raiva de todo mundo, a que via problema em tudo... Durante minha adolescência eu parecia feliz em casa, mas na escola eu soltava minha raiva e eu nem sabia raiva do quê. Aprendi ser cruel com as outras crianças, a X9, que humilhava os outros por ser mais "decente" (whatever that means) e por não ser burra como a maioria. Eu me vestia mal, eu não ouvia as mesmas músicas que eles, eu não ficava com os garotos, a feia.
Na verdade eu já tive meu banho de tinta, no meio do pátio do Colégio Polivalente. O aluno problema puxou minha calça da educação física pra mostrar que eu usava um short por baixo e todo mundo riu. Eu guardei isso durante 5 anos, até a gente se encontrar de novo no ensino médio e dei o meu troco, em grande estilo por sinal. Mas o que importa é que na verdade acho que já tive meu banho de tinta antes disso, os meninos que mandavam minha irmã sentar no colo deles e simular sexo na minha frente, o tio do doce que me molestou, e alguma coisa entre 1990 e 1991 que me deixou tão enfurecida que eu quebrei um janela maior que eu usando a minha lancheira mas não faço a mínima ideia do que se tratava. Na verdade, toda mulher é um pouco Carrie e o dia do baile pode ser qualquer dia. Se a gente soubesse quando a merda ia acontecer se preparava antes, mas não tem como saber. O que a gente faz é sempre ter essa pontinha de esperança absurda de que de alguma forma vão nos aceitar, nos acolher, elogiar nosso vestido, dizer "finalmente, carrie você conseguiu ser uma de nós".
Mas pra algumas de nós esse dia nunca chega. O que fazer? Vovó já dizia "se o diabo bate na sua porta chama ele pra dançar". Quanto mais envelheço mais cresce a certeza que de alguma maneira eu nunca vou me encaixar nem se eu quiser me encaixar. Está na minha pele, está na minha buceta e eu não me iludo mais. Bem, pelo contrário assim como diria o piroco "toda unanimidade é burra" quando eu vejo muita gente dando tapinha no meu ombro e sorrindo pra mim me preparo pra o balde de tinta cair na minha cabeça. Eu estou sentada na cadeira da estranheza pra o resto da vida, muito bem confortável, indo a passos largos pra o inferno que é pra onde vão todas as sofredoras e nem preciso me esforçar pra isso. Ás vezes eu grito "só queria ser normal". Aí olho pra mim mesma e repito "Nunca será"

Sapho Antiglitter

ps: parecendo os textos que escrevia 10 anos atrás.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Os caras não gostam mais de você ...

... do que as minas que discutem com você ou foram escrotas em algum momento. Eu cresci em uma casa com outras 4 garotas, havia muito amor, códigos de honra só nossos, encobrir o que a outra fez de errado, etecetra. Um desses códigos que funcionava como um contrato que nunca foi verbalizado mas era entendido por todas: da porta pra fora ninguém mexe com uma irmã minha, da porta de casa pra dentro a gente se entende. Acredite, mesmo eu morando fora de casa e longe das minhas irmãs há muito tempo o mesmo código funciona. Temos nossos problemas que hoje são muito mais densos do que "você pegou meu sapato sem pedir", mas eu sei que se alguém fala algo ofensivo contra mim elas saem em minha defesa, mesmo que elas concordem com a pessoa que está me ofendendo.E por que eu confio mesmo não estando perto delas? Porque eu sei exatamente as pessoas que elas são, porque eu sei com quem estou  lidando e a primeira coisa que eu sei sobre minhas irmãs (carolas, conservadoras, o contrário de tudo o que eu sou) é que elas não são homens (não são o único homem que morava na nossa casa, meu pai). Eu sei que elas podem me ofender, algumas vezes já vi as duas mais velhas se agredirem fisicamente. Mas da porta pra fora da nossa relação a gente sabia que tinha que se proteger, sabíamos que éramos garotas pobres, que se não contássemos uma com a outra o mundo não ia passar a mão na nossa cabeça, nosso pai não ia passar a mão na nossa cabeça. Então a gente divergia em casa, brigava em casa, até 18:30hrs. Depois dessa hora nosso pai chegava e aí era uma pela outra, ninguém dedurava a traquinagem da outra, ninguém ofendia a outra na frente dele, se uma apanhasse todas apanhavam, se uma chorasse todas choravam, se uma ficava no castigo todas iam pra o castigo. Sobre esse último ponto a gente conseguia completamente desestabilizar o patriarca, porque castigo com todas juntas trancada num quarto era festa, era momento de partilha, era momento de consolar quem tinha apanhado, contar o que houve na escola e eu sinto muita saudade desses castigos coletivos, pasmem! Mas então ele nos atacava e abria a porta do quarto e separava umas das outras, eu lembro muitas vezes de ser tirada do colo da minha irmã mais velha aos berros (ela me pegou no colo até a pré adolescência). Ele nos atacava no que era mais precioso entre a gente, a nossa união.
Vocês não precisam ter uma relação de amor familiar com todas as mulheres que existem e eu sei que o mundo não é a minha casa, lá fora são muitos mais pais pra doutrinar a gente e nos separar, o buraco é mais embaixo, as relações são mais complexas ou quem sabe superficiais. Vocês não precisam nem amar todas as mulheres, mas vocês precisam aprender que uma mulher não é um homem e a pior ofensa que você pode fazer a uma mulher é compará-la a um homem.
 ESTRUTURA. A relação infernal com meu pai dentro de casa que eu pensei por muitas vezes ser um problema isolado, com aquele homem em específico e da minha família é apenas reflexo do que eu veria mais tarde. Mesmo que ele fosse um gentleman, o mais simpático, moderno, carismático e doce dos pais isso não mudaria o fato de que ele é um homem, eu poderia amá-lo até. Mas isso não muda o fato de que ele seria uma exceção e eu não poderia ver essa relação minha com ele enquanto parâmetro das relações de todas as mulheres com todos os homens.
 Um dia eu me recusei a ir ao casamento de uma amiga da igreja que tinha só 18 anos. Na época eu não entendia minha revolta, eu não entendia porque quando eu via uma mulher casar me sentia de fato no seu enterro, mas enquanto tentavam me convencer a me vestir para ir ao casamento a minha mãe sentou para conversar comigo e vendo o quanto eu parecia revoltada com tudo aquilo ela disse "nem todos os homens são seu pai". Naquele momento duas coisas aconteceram, eu descobri que minha mãe tinha consciência de quem era meu pai e que somos ensinadas a contar com a exceção. Foi exatamente isso que eu disse "nem todos são, aí agente tem que sair apostando se o que a gente encontrar vai ser igual ele ou não".É exatamente isso que somos ensinadas a contar com a exceção e quando saímos em defesa da classe masculina por conta daquele amigo, irmão, pai, namorado que é tão bom pra gente estamos dizendo para as outras mulheres "vai jogando aí com sua vida, quem sabe você não encontra um igual ao meu".Acontece que nesse jogo elas podem encontrar o contrário do que vocês encontraram (ou acham que encontraram, mas esse é outro papo) e aí quem arca com a responsabilidade das consequências disso? Ao invés de sermos ensinadas a fugir da regra, estamos ensinando e sendo ensinadas a esperar o bom homem e pra isso contar com a sorte. A vida das mulheres numa loteria de quem sai menos fudida no final de tudo.
Existem mulhres que me fizeram mal, que eu não quero contato, que eu cortei laços. Mas essas mulheres não são homens. nem piores que homens. Quando a gente fala "essa daí é pior que macho" é justamente porque no fundo a gente não espera aquela atitude de outra mulher. Por que isso? Porque a gente sabe que mulheres são melhores que os homens e contamos com isso. Aí uma de nós falha e desacreditamos umas das outras novamente. E é óbvio que estou escrevendo esse texto para mulheres feministas que vivem nesse doloroso processo de reconstruir suas relações umas com as outras nadando contra a corrente. Porque fora da bolha, amigas, nem faz sentido essa discussão. Então sim, lá fora é pior. E é pior porque são os caras que comandam nossas relações. Lá fora é 18:30 todo dia, toda hora, sem um minuto de folga. É a hora que o macho chega para mandar na casa e meter a porrada em todo mundo. E por mais que você não seja aquela que está apanhando é preciso sentir como se você estivesse apanhando. Sabe aquela velha palavra de ordem "até que todas sejamos livres"? Não significa que vamos formar uma linda comunidade hippie amazona e viver em harmonia num mundo pós revolução feminista, signifca que enquanto existir uma mulher lá fora apanhando todas nós estamos apanhando. Enquanto existir uma mulher sendo assediada na sua faculdade todas as mulheres da sua faculdade estão sendo assediadas. Enquanto existir uma mulher que não encontrou aquele gentleman que a trata com dignidade humana (ainda que superficialmente) nenhuma mulher está sendo tratada com dignidade.
Os homens não gostam mais de você do que as mulheres que brigam com você. E sabe por quê essas brigas são tão violentas entre nós ás vezes? Porque você sabe exatamente com quem você está falando. Você sabe que pode mandar a outra pra o inferno e depois dormir na mesma casa que ela. Você sabe que se ela fizer algo contra você ela não tem o aval da sociedade, não existe uma estrutura que a proteja contra você. Isso significa que você está discutindo com alguém em uma situação que não existe hierarquia. É por isso que a gente briga, a gente sabe com quem está falando. Assim como eu sabia que minha irmã podia me dar umas palmadas, mas existia uma estrutura hierárquica sobre ela dentro de casa e isso estava muito claro, por isso eu a desafiava. Com relação a meu pai? Eu não era louca de dizer pra ele as coisas feias que eu falava para minhas irmãs porque eu sabia quem ele era e o que ele significava naquela casa.
O amigo, pai, irmão, namorado que te trata bem e você pensa "é melhor que essas feministas todas aí" não trata bem todas as mulheres, vamos ser sinceras que eu sei que você sabe. Por mais que ele te trate bem isso não o tira da posição hierárquica que ele ocupa na sociedade sobre você. Experimente falar com esse amigo como você fala quando discute com outra mulher, desconsiderando que está falando com homem, discuta com ele e pense "vou falar como falaria com uma mulher" e espere o resultado, a depender do amigo faça umas aulas de Krav Mangá antes (prevenir é melhor do que remediar).


Sapho Antiglitter

segunda-feira, 9 de março de 2015

Lesbiandade não se justifica...



... a pessoas heterossexuais e homens (seja lá qual for). Eu estou cansada de pedir perdão, licença poética e agir como se estivesse agradecendo ao mundo por me permitir (e nem permitem) preferir chupar uma buceta a sentar de novo num pau. Eu tive sim minha porção (de fel) da heterossexualidade e não importa se foi uma escolha consciente, se eu nasci assim, se é uma junção das coisas a forma como minha sexualidade se manifesta agora. O que é incontestável:
.a heterossexualidade só foi pra mim violência e negação
. eu gosto de mulheres, eu colo velcro, eu gosto de colocar a aranha pra brigar
E estou infinitamente cansada de ter que contar detalhes violentos da minha vida sexual para que aceitem o fato de que não quero mais me relacionar com homens. Porque isso não é da conta de ninguém, porque isso me fere e porque eu tatuei no meu ombro esquerdo "Viver sem tempos mortos" fazendo referência a tudo que sofri vivendo enquanto mulher heterossexual. Eu não quero mais me sentir obrigada a esfregar meu próprio passado na minha cara para matar a curiosidade alheia. Eu não vou falar mais nada e vou me esforçar pra cada dia mais me apropriar da palavra que temi boa parte da minha vida "L É S B I C A".
Eu não fico interrogando às amigas heterossexuais quanto a sua sexualidade, a não ser que elas tragam esses questionamentos para mim (e se você não quer ouvir minha opinião por favor não peça) e em um momento de intimidade, confiança e partilha ouço e falo sobre nossos sentimentos e sobre o que nos fere com relação a isso. Por que eu me sinto obrigada sempre a contar detalhes íntimos da minha vida para que as pessoas (maior parte mulheres héteros e homens) aceitem o fato óbvio de que há um ano e meio eu descobri o que eu sou e gosto? Sim, foi após mais de 20 anos de vida, mas tem gente que morre sem saber nem se gostava de estar vivo ou não.
Se no início havia aquele sentimento neófito de empolgação e adrenalina do medo da descoberta, depois os períodos tensos de profunda reflexão e questionamentos, hoje me sinto cada vez mais feliz em ser lésbica por mais que eu seja ferida por conta disso. Mas a ferida não vem como vinha antes de dentro de mim para fora, ela vem de fora e cabe a mim decidir se vou engolir ela ou regurgitar na cara de quem me fere. Hoje eu estou vomitando na cara de todo mundo:

"LÉSBICA, FANCHA, SAPATÃO"

A parte mais feliz da minha vida é a minha lesbiandade, quando eu me sinto mais feliz é quando estou entre outras lésbicas, nunca tinha sentido tanto prazer sexual (mesmo transando com mulheres) como sinto agora que assumi pra mim a minha lesbiandade. E da mesma forma que eu orava pedindo a deus que nunca me deixasse sair da sua presença (intencionando dizer "nunca me deixe tornar essa coisa horrível que eu penso ser... shiiiu... fala baixinho les bi ca), agora eu só peço a mim mesma pra nunca me deixar enganar novamente porque eu sou

 L É S B I C A!

Porque também minha lesbiandade não se justifica, não  pede licença, nem "muito obrigada", se impõe.


Saluba Nanã!



quinta-feira, 5 de março de 2015

Tenho 10 minutos para escrever esse post

Eu já tive muitos blogs, páginas, perfis. Eu vou mudando e quando eu mudo não olho pra trás. Não volto nem para fechar as portas, muitas vezes eu não disse nem mesmo adeus. Ás vezes isso me fere mais do que fere as pessoas que deixo para trás. Mas talvez pensar assim seja puro egoísmo.
Vida. Já tive várias. E eu acho que sempre foi isso que eu quis, tanto que já tentei até mesmo ser atriz. Mas não é questão de encenação, é questão de explodir o que me faz mal e sair correndo para não morrer tostada. Fiz esse blog para abandonar o meu  perfil no meu facebook. Estou em pleno inferno astral, mas estou feliz. Eu sou muito mistica e acredito que minha vida dá uma reviravolta sempre na mesma época do ano. E essa época chegou. Um dia vou contar aqui sobre meu primeiro blog, sobre minha relação com a zona azul (como apelidei a internet) e talvez vocês entendam melhor a minha loucura do que eu mesma. 
Por enquanto ando sem tempo para nada, por isso esse post precisa ser escrito em apenas 10 minutos. Então por uns dias esse blog será apenas um depósito onde vou guardar os textos que estavam publicados no perfil que estou deixando para trás no facebook.
Se quiserem falar comigo, vou deixar o email quando terminar de escrever esse texto fast food e se quiserem me dar uma cerveja bebo um copo em menos de 8 minutos.
Bem, seguindo a lógica do mercado de trabalho consegui escrever em 6 minutos. Acho que estou aprendendo a otimizar o meu tempo .... Nãaaao. Só preciso ir trabalhar e sobreviver.

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Sapho Antiglitter


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