sexta-feira, 13 de março de 2015

Eu, a estranha

Eu não sei desde quando eu me sinto assim, mas lembro que vem de muito longe. Desde muito cedo vivo esperando o momento que todos vão jogar tinta em mim no baile de formatura e rir da minha cara publicamente e mais ainda pelo momento que eu vou ficar tão furiosa a ponto de chutar todo mundo e explodir a festa toda. É, eu sei...é infantil. Há um tempo atrás eu chamava isso de síndrome de mártir, aquela coisa toda de ser sempre perseguida e sofredora. Hoje eu não tenho tanta certeza que se trata só disso. Na verdade, eu tenho certeza é que 70% desse sentimento é bem material, não tem nada de loucura subjetiva. De certa maneira eu sempre fui Carrie, exótica, excêntrica, estranha mesmo para ser bem clara. Aí você olha pra mim e vê uma mulher comum, que faz tudo que todo mundo faz (trabalho, faculdade, convivência social) e pensa que eu realmente sofro de mania de perseguição. Mas não, eu sempre nadei contra a corrente, sempre. Eu sempre me destaquei de uma maneira extremamente nociva pra mim. A única mina negra do jardim de infância a quarta série, a única mina pobre da escolinha, a única adolescente que não tinha beijado ninguém, a problemática que chorava e tinha raiva de todo mundo, a que via problema em tudo... Durante minha adolescência eu parecia feliz em casa, mas na escola eu soltava minha raiva e eu nem sabia raiva do quê. Aprendi ser cruel com as outras crianças, a X9, que humilhava os outros por ser mais "decente" (whatever that means) e por não ser burra como a maioria. Eu me vestia mal, eu não ouvia as mesmas músicas que eles, eu não ficava com os garotos, a feia.
Na verdade eu já tive meu banho de tinta, no meio do pátio do Colégio Polivalente. O aluno problema puxou minha calça da educação física pra mostrar que eu usava um short por baixo e todo mundo riu. Eu guardei isso durante 5 anos, até a gente se encontrar de novo no ensino médio e dei o meu troco, em grande estilo por sinal. Mas o que importa é que na verdade acho que já tive meu banho de tinta antes disso, os meninos que mandavam minha irmã sentar no colo deles e simular sexo na minha frente, o tio do doce que me molestou, e alguma coisa entre 1990 e 1991 que me deixou tão enfurecida que eu quebrei um janela maior que eu usando a minha lancheira mas não faço a mínima ideia do que se tratava. Na verdade, toda mulher é um pouco Carrie e o dia do baile pode ser qualquer dia. Se a gente soubesse quando a merda ia acontecer se preparava antes, mas não tem como saber. O que a gente faz é sempre ter essa pontinha de esperança absurda de que de alguma forma vão nos aceitar, nos acolher, elogiar nosso vestido, dizer "finalmente, carrie você conseguiu ser uma de nós".
Mas pra algumas de nós esse dia nunca chega. O que fazer? Vovó já dizia "se o diabo bate na sua porta chama ele pra dançar". Quanto mais envelheço mais cresce a certeza que de alguma maneira eu nunca vou me encaixar nem se eu quiser me encaixar. Está na minha pele, está na minha buceta e eu não me iludo mais. Bem, pelo contrário assim como diria o piroco "toda unanimidade é burra" quando eu vejo muita gente dando tapinha no meu ombro e sorrindo pra mim me preparo pra o balde de tinta cair na minha cabeça. Eu estou sentada na cadeira da estranheza pra o resto da vida, muito bem confortável, indo a passos largos pra o inferno que é pra onde vão todas as sofredoras e nem preciso me esforçar pra isso. Ás vezes eu grito "só queria ser normal". Aí olho pra mim mesma e repito "Nunca será"

Sapho Antiglitter

ps: parecendo os textos que escrevia 10 anos atrás.

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