quarta-feira, 11 de março de 2015

Os caras não gostam mais de você ...

... do que as minas que discutem com você ou foram escrotas em algum momento. Eu cresci em uma casa com outras 4 garotas, havia muito amor, códigos de honra só nossos, encobrir o que a outra fez de errado, etecetra. Um desses códigos que funcionava como um contrato que nunca foi verbalizado mas era entendido por todas: da porta pra fora ninguém mexe com uma irmã minha, da porta de casa pra dentro a gente se entende. Acredite, mesmo eu morando fora de casa e longe das minhas irmãs há muito tempo o mesmo código funciona. Temos nossos problemas que hoje são muito mais densos do que "você pegou meu sapato sem pedir", mas eu sei que se alguém fala algo ofensivo contra mim elas saem em minha defesa, mesmo que elas concordem com a pessoa que está me ofendendo.E por que eu confio mesmo não estando perto delas? Porque eu sei exatamente as pessoas que elas são, porque eu sei com quem estou  lidando e a primeira coisa que eu sei sobre minhas irmãs (carolas, conservadoras, o contrário de tudo o que eu sou) é que elas não são homens (não são o único homem que morava na nossa casa, meu pai). Eu sei que elas podem me ofender, algumas vezes já vi as duas mais velhas se agredirem fisicamente. Mas da porta pra fora da nossa relação a gente sabia que tinha que se proteger, sabíamos que éramos garotas pobres, que se não contássemos uma com a outra o mundo não ia passar a mão na nossa cabeça, nosso pai não ia passar a mão na nossa cabeça. Então a gente divergia em casa, brigava em casa, até 18:30hrs. Depois dessa hora nosso pai chegava e aí era uma pela outra, ninguém dedurava a traquinagem da outra, ninguém ofendia a outra na frente dele, se uma apanhasse todas apanhavam, se uma chorasse todas choravam, se uma ficava no castigo todas iam pra o castigo. Sobre esse último ponto a gente conseguia completamente desestabilizar o patriarca, porque castigo com todas juntas trancada num quarto era festa, era momento de partilha, era momento de consolar quem tinha apanhado, contar o que houve na escola e eu sinto muita saudade desses castigos coletivos, pasmem! Mas então ele nos atacava e abria a porta do quarto e separava umas das outras, eu lembro muitas vezes de ser tirada do colo da minha irmã mais velha aos berros (ela me pegou no colo até a pré adolescência). Ele nos atacava no que era mais precioso entre a gente, a nossa união.
Vocês não precisam ter uma relação de amor familiar com todas as mulheres que existem e eu sei que o mundo não é a minha casa, lá fora são muitos mais pais pra doutrinar a gente e nos separar, o buraco é mais embaixo, as relações são mais complexas ou quem sabe superficiais. Vocês não precisam nem amar todas as mulheres, mas vocês precisam aprender que uma mulher não é um homem e a pior ofensa que você pode fazer a uma mulher é compará-la a um homem.
 ESTRUTURA. A relação infernal com meu pai dentro de casa que eu pensei por muitas vezes ser um problema isolado, com aquele homem em específico e da minha família é apenas reflexo do que eu veria mais tarde. Mesmo que ele fosse um gentleman, o mais simpático, moderno, carismático e doce dos pais isso não mudaria o fato de que ele é um homem, eu poderia amá-lo até. Mas isso não muda o fato de que ele seria uma exceção e eu não poderia ver essa relação minha com ele enquanto parâmetro das relações de todas as mulheres com todos os homens.
 Um dia eu me recusei a ir ao casamento de uma amiga da igreja que tinha só 18 anos. Na época eu não entendia minha revolta, eu não entendia porque quando eu via uma mulher casar me sentia de fato no seu enterro, mas enquanto tentavam me convencer a me vestir para ir ao casamento a minha mãe sentou para conversar comigo e vendo o quanto eu parecia revoltada com tudo aquilo ela disse "nem todos os homens são seu pai". Naquele momento duas coisas aconteceram, eu descobri que minha mãe tinha consciência de quem era meu pai e que somos ensinadas a contar com a exceção. Foi exatamente isso que eu disse "nem todos são, aí agente tem que sair apostando se o que a gente encontrar vai ser igual ele ou não".É exatamente isso que somos ensinadas a contar com a exceção e quando saímos em defesa da classe masculina por conta daquele amigo, irmão, pai, namorado que é tão bom pra gente estamos dizendo para as outras mulheres "vai jogando aí com sua vida, quem sabe você não encontra um igual ao meu".Acontece que nesse jogo elas podem encontrar o contrário do que vocês encontraram (ou acham que encontraram, mas esse é outro papo) e aí quem arca com a responsabilidade das consequências disso? Ao invés de sermos ensinadas a fugir da regra, estamos ensinando e sendo ensinadas a esperar o bom homem e pra isso contar com a sorte. A vida das mulheres numa loteria de quem sai menos fudida no final de tudo.
Existem mulhres que me fizeram mal, que eu não quero contato, que eu cortei laços. Mas essas mulheres não são homens. nem piores que homens. Quando a gente fala "essa daí é pior que macho" é justamente porque no fundo a gente não espera aquela atitude de outra mulher. Por que isso? Porque a gente sabe que mulheres são melhores que os homens e contamos com isso. Aí uma de nós falha e desacreditamos umas das outras novamente. E é óbvio que estou escrevendo esse texto para mulheres feministas que vivem nesse doloroso processo de reconstruir suas relações umas com as outras nadando contra a corrente. Porque fora da bolha, amigas, nem faz sentido essa discussão. Então sim, lá fora é pior. E é pior porque são os caras que comandam nossas relações. Lá fora é 18:30 todo dia, toda hora, sem um minuto de folga. É a hora que o macho chega para mandar na casa e meter a porrada em todo mundo. E por mais que você não seja aquela que está apanhando é preciso sentir como se você estivesse apanhando. Sabe aquela velha palavra de ordem "até que todas sejamos livres"? Não significa que vamos formar uma linda comunidade hippie amazona e viver em harmonia num mundo pós revolução feminista, signifca que enquanto existir uma mulher lá fora apanhando todas nós estamos apanhando. Enquanto existir uma mulher sendo assediada na sua faculdade todas as mulheres da sua faculdade estão sendo assediadas. Enquanto existir uma mulher que não encontrou aquele gentleman que a trata com dignidade humana (ainda que superficialmente) nenhuma mulher está sendo tratada com dignidade.
Os homens não gostam mais de você do que as mulheres que brigam com você. E sabe por quê essas brigas são tão violentas entre nós ás vezes? Porque você sabe exatamente com quem você está falando. Você sabe que pode mandar a outra pra o inferno e depois dormir na mesma casa que ela. Você sabe que se ela fizer algo contra você ela não tem o aval da sociedade, não existe uma estrutura que a proteja contra você. Isso significa que você está discutindo com alguém em uma situação que não existe hierarquia. É por isso que a gente briga, a gente sabe com quem está falando. Assim como eu sabia que minha irmã podia me dar umas palmadas, mas existia uma estrutura hierárquica sobre ela dentro de casa e isso estava muito claro, por isso eu a desafiava. Com relação a meu pai? Eu não era louca de dizer pra ele as coisas feias que eu falava para minhas irmãs porque eu sabia quem ele era e o que ele significava naquela casa.
O amigo, pai, irmão, namorado que te trata bem e você pensa "é melhor que essas feministas todas aí" não trata bem todas as mulheres, vamos ser sinceras que eu sei que você sabe. Por mais que ele te trate bem isso não o tira da posição hierárquica que ele ocupa na sociedade sobre você. Experimente falar com esse amigo como você fala quando discute com outra mulher, desconsiderando que está falando com homem, discuta com ele e pense "vou falar como falaria com uma mulher" e espere o resultado, a depender do amigo faça umas aulas de Krav Mangá antes (prevenir é melhor do que remediar).


Sapho Antiglitter

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