quarta-feira, 8 de abril de 2015

Solidão, lesbiandade e negritude



Ontem eu estava voltando do trabalho, após andar um pouco sozinha pela Zona Sul do Rio, meio que enojada de todas aquelas pessoas que vivem por lá como sempre. Eu estava ansiosa, com medo, insegura e fiquei me perguntando se eu tinha o direito de amar e sentir como todas aquelas pessoas. Óbvio que a resposta é não. Mas existe um motivo mais denso por trás desse não, do que simplesmente argumentos teóricos sobre como as demandas da vida material afetam a vida de uma mulher negra, pobre e lésbica a privando até mesmo de demonstrações públicas de afeto por ser lésbica e de desenvolver relacionamentos sérios e sadios por ser negra. Isso é fundamental para entender o que é de fato a solidão da mulher negra que as feministas negras tanto falam. Eu, por exemplo, quando mais nova já desejei chegar logo aos 30 para evitar ser aliciada a prostituição. Passada a idade eu teria saído do mercado. As tentativas de aliciamento ou insinuações não ocorreram porque eu era bonita, quando adolescente eu era uma figura meio estranha (sei lá sempre acho que todo mundo me observa com estranheza mesmo), o motivo do aliciamento era por ser mulher e pobre, ser negra me colocava como mais disponível. Mas se você é mulher e pobre, sabe que essa é uma opção que a sociedade deixa reservada pra você, mesmo que seja branca, é como se todo mundo dissesse sem abrir a boca "tá precisando de grana? usa o que você tem". Mas ninguém fala.
Assim como ninguém chega pra mim e fala "não vou ter um relacionamento com você porque você é negra". E nesse caso é mais complicado porque as pessoas não conseguem mudar essa atitude e nem ao menos identificá-la, é automático. As mulheres, meninas que são minhas amigas ou algo a mais, não entendem o que é ser a vida toda referenciada como a segunda pessoa, a coadjuvante em que sua amiga ou namorada branca se fia para ser a protagonista. É assim que somos referenciadas na tv, da Sessão da Tarde até o horário nobre. E é assim que minhas amigas brancas de classe média viveram a vida toda, a amiga negra era a exceção, a raridade na boite, na festinha de aniversário, na classe da escola, no playground do condomínio. Talvez você goste muito dela, talvez você a tenha ajudado quando ela sofreu bullying, talvez essa amiga negra esteja na sua vida até hoje, mas sempre como exceção e por isso talvez você tenha se acomodado e muito provavelmente nunca tenha passado na sua cabeça que mesmo que ela ainda não tenha consciência disso ela sempre esteve sozinha nos espaços que você talvez a tenha tentado inserir.
Quando eu falo de solidão da mulher negra, eu não falo como algumas irmãs de luta que eu respeito sobre a necessidade do casamento (hétero na maioria das vezes) ou de um relacionamento sério que as mulheres negras sentem. Eu falo sobre sentir sozinha, sobre não ser aceita ou quando se é aceita em certos círculos olhar pra os lados e não ver seus iguais, suas iguais.
Ontem enquanto eu caminhava entre o Largo do Machado e o  Catete,apenas caminhando e refletindo eu vi na mesma calçada uma garota ruiva caminhando sozinha com seus fones de ouvido, ela não parecia ter pressa então eu deduzi que ela estava fazendo o mesmo que eu, apenas caminhando. E eu pensei "O que é essa garota branca caminhando sozinha aqui nesse lugar e o que sou eu caminhando sozinha aqui nesse lugar?" Se ela chorar, se ela levar um pontapé, se ela for assaltada qual vai ser o tratamento que ela vai receber? Mas menos trágico que isso, o que as pessoas pensam quando a vêem e o que pensam quando me vêem? Eu acho que quando a vêem não pensam nada. Quando me vêem pensam muitas coisas.  Acho que a primeira coisa que as pessoas identificam em mim aqui no Rio é que sou nordestina, depois que eu vim morar no sudeste descobri que isso está escrito na minha testa. As pessoas quando a vêem não pensam nada porque o lugar a pertence, quando me vêem pensam muitas coisas porque nada é meu. Isso é o que eu concluo que seja a solidão da mulher negra.
E se eu chorar no meio da rua, e se eu sofrer de amor? Bem capaz que algum músico que curta chorinho faça um samba que eu nunca vá conhecer e é capaz que achem que eu estou ali me prostituindo e algum cliente me agrediu, que eu estou chorando porque recebo pouco, mas vai ser normal o meu choro. Porque se tem uma coisa que pertence a uma mulher negra, lésbica, nordestina é a tristeza e a solidão. Esse lugar nos foi reservado. Se aquela garota chorar as pessoas vão achar muito estranho, ela não nasceu pra chorar andando sozinha no meio da rua em plena terça-feira. Eu sim. Eu que nem ao menos posso demonstrar afeto pela mulher que eu amo em qualquer lugar, eu que não sou de lugar nenhum, eu que sempre sou olhada com estranheza em certos meios, eu que sou sempre a esquisita, a estranha porque eu cismo em agir como se as calçadas entre o Largo do Machado e o Catete fossem minhas e sempre cismei em agir como se o mundo e a comunidade que somos nele me pertencessem. Mas nada é meu.