quinta-feira, 25 de junho de 2015

A solidão vai acabar comigo?



Desde que emancipei minha sexualidade de um relacionamento hétero e sai do armário já me apaixonei umas quatro vezes e todas elas parecia que eu tava arrancando meu coração para fora do corpo. Eu nunca tinha me sentido assim. É tudo tão bom, mas tudo tão breve que toda vez que acaba parece que explodiram minha cabeça também. E é assim com o coração para fora do corpo e a cabeça aberta que tenho vivido esses últimos dois anos e meio.
De certa forma eu considero que é a única maneira honesta de viver. Independente de qual fosse meu caminho, meu caminho seria esse. Eu disse isso pra minha mãe uns anos atrás falando de outro assunto. É, não teria outro jeito mesmo, todas as portas que eu consigo imaginar que abriria ou as estradas que eu poderia escolher, tudo acabaria do mesmo jeito. É... não haveria outro jeito honesto de viver.
As pessoas riem muito de mim por causa da minha hiper sensibilidade, essa maneira virgem e estranhamente cavalheiresca (se você considerar que eu sou feminista e isso quase me define completamente) que eu tenho de ver as minhas relações com as mulheres pelas quais eu me apaixono, e riem também do tanto que eu sofro. As pessoas riem também de algumas mulheres que choraram quando gozaram pela primeira vez transando com outra mulher (ou seja riem de mim de novo). Vejo algumas pessoas sendo bem grosseiras nesse sentido. Veja bem, eu aceito brincadeiras com essa minha sensibilidade excessiva, porque ás vezes é bem caricato e engraçado mesmo. Mas certos comportamentos só fizeram sentido quando convergiram para  a minha lesbiandade. Porque tem coisas dolorosas, bonitas, difíceis que só se relacionando com outra mulher para se entender, como chorar de alegria depois de transar. Essa parte minha que ama tanto é culpa da socialização, mas ela faz mais sentido se esse apaixonamento é por outra mulher, sabe? Porque sentir isso por homem é suicídio mesmo. Então, nesses dois anos eu tenho ficado a maior parte do tempo sozinha, já que cumprindo outro clichê só arrumo namorada longe. Eu tenho sido lésbica sozinha, o que é bem difícil, muito mesmo já que eu gosto bastante de estar com outra mulher sexualmente ou de qualquer outro jeito. Eu fico me sentindo meio impotente e inútil, você querer tanto as mulheres e elas nunca te quererem de volta é bem difícil de aguentar. Mas ainda assim é melhor do que mentir, ainda assim ser lésbica é a maneira mais honesta de ser eu, talvez ficar sozinha também seja.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Eu urso

Eu tenho um urso. Ele vive dentro de uma caixa. Nada que existe fora da caixa é real. Ele já saiu da caixa e se decepcionou porque tudo que ele imaginou durante anos que existia fora da caixa só existia na sua imaginação. O urso tem fome, sede, ele sofre mas se conformou que a caixa é suficiente, ela é grande e consegue conter ele apesar de ser apenas uma caixa. Então ele fica dentro da caixa pra sempre. Ele criou seu próprio mundo dentro da caixa e prefere ficar lá dentro imaginando o que existe fora da caixa do que sair de lá de novo e se decepcionar. 
Ele criou um universo lindo para ele mesmo, ele imagina que fora da caixa exista uma
fonte de mel infinita, ele imagina que fora da caixa existam outros ursos, ele imagina que fora da caixa exista amor. A sua imaginação é infinita, o que tem lá fora não. Ele não sabe o que é ser um urso, ele nunca saiu da caixa. Quando ele saiu da caixa e chamaram ele de urso, se assustou. Ele não sabia que existia um nome para aquilo que ele era e se ofendeu quando gritaram "É um urso! Cuidado! Prendam ele!". Foi nesse dia que ele voltou pra caixa e nunca mais saiu de lá, foi nesse dia que o primeiro passo fora da caixa foi de esperança e o segundo uma armadilha, Ele não quer ser capturado novamente. Então ele fica dentro de sua caixa vazia onde ele pensa que come, mas a comida é invisivel. Ele pensa que ouve música mergulhado no silêncio e ele pensa que é feliz mesmo sem saber o que é isso. E ele pensa que existe uma mesa dentro da caixa e ele pensa que sua família imaginária se senta ao redor dessa mesa para tomar café. Ele pensa que a marca do seu próprio sangue em uma das paredes da caixa é um arco-íris que ele mesmo desenhou e ele pensa que está de pé. Até que um dia ouve uma voz que vem de fora dizendo que quer libertá-lo e sua caixa desaba, entra luz dentro da caixa e ele nota que sempre esteve amordaçado e quando tenta fugir de novo para escuridão percebe que nunca esteve de pé pôs seus tornozelos estão amarrados um no outro e pela primeira vez ele sente dor. E ele percebe que todo o universo que ele criou dentro da caixa são só 2 metros e meio de largura, quando lhe dão comida a primeira vez sua barriga dói tanto que ele entende que nunca comeu, então passa a mão pelas suas costelas e vê como está magro e sente algo doer e percebe que arrancaram suas unhas, procura pelo preso no sangue seco das suas unhas mas não tem nada. Ele acha estranho, se as unhas sangraram e tiveram contato com seus pelos deveriam ter fios presos entre as unhas, ele nota que tiraram todo o seu pelo. Então ele leva as mão a cabeça desesperado e descobre que cortaram um pedaço das suas orelhas, procura um espelho desesperado para ver o seu real estado e enxerga um borrão, assim descobre que está cego. Começa a chorar de tanto sofrimento e enquanto se envolve com seus próprios braços nota uma marca, foi marcado com um ferro. Se revolta e levanta furioso, procura restos da caixa para fugir com ela para longe, de repente não restou nem um pedaço de papelão. Nessa hora sente uma presença humana ao seu lado, seu olfato está pouco apurado mas tenta cheirá-la, é um cheiro conhecido, tenta abraçá-la e seus braços também lhe são conhecidos. Olha o borrão no espelho e entende " Se a caixa estava lá fora e eu dentro, nunca existiu uma caixa e o urso sou eu"

Foto:
Performance de Carlee Fernandez
Bear Studies